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terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Geografia | Adeus trabalho velho, bem-vindos robôs - A globalização é um processo de mudanças que não pode ser analisada apenas pelos seus aspectos geopolíticos e econômicos. Correríamos o risco de cair na cilada do tecnicismo, que apenas alinha dados e situa fenômenos específicos. No entanto, esse fenômeno atua fortemente sobre o homem alterando comportamentos e abalando personalidades

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Geografia | Adeus trabalho velho, bem-vindos robôs - A globalização é um processo de mudanças que não pode ser analisada apenas pelos seus aspectos geopolíticos e econômicos. Correríamos o risco de cair na cilada do tecnicismo, que apenas alinha dados e situa fenômenos específicos. No entanto, esse fenômeno atua fortemente sobre o homem alterando comportamentos e abalando personalidades

Geografia | Adeus trabalho velho, bem-vindos robôs - A globalização é um processo de mudanças que não pode ser analisada apenas pelos seus aspectos geopolíticos e econômicos. Correríamos o risco de cair na cilada do tecnicismo, que apenas alinha dados e situa fenômenos específicos. No entanto, esse fenômeno atua fortemente sobre o homem alterando comportamentos e abalando personalidades

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Crueldade atômica

Revista Brasil Atual

Caía uma chuva negra. A população pensava ser óleo jogado pelos americanos, mas era uma chuva ácida, resultante da explosão com força de 21 toneladas de dinamite

Por: Moacir Assunção

Publicado em 14/10/2010

Crueldade atômica

Yoshitaka estava em um navio em Nagasaki quando a bomba explodiu. “O dia virou noite” (Foto: Danilo Ramos)

Haruko Yoshiga, de 88 anos, Yasuko Nishimura, de 79, e Yoshitaka Samedima, de 82, têm em comum a lembrança viva do maior horror jamais criado pelo homem: a bomba atômica. Lançada há 65 anos por aviões americanos, ela arrasou as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki. Os descendentes de japoneses viram nascer a maior arma de destruição em massa, cuja criação marcou um novo paradigma na história do homem, ao estabelecer que a própria raça poderia ser extinta.

Yasuko, a única natural de Hiroshima, chegou ao Brasil em 1952. Haruko e Yoshitaka, de pais japoneses, são brasileiros nascidos no estado de São Paulo, que voltaram à terra de seus ancestrais no final da década de 1930 para aprender o idioma e retomar o contato com sua cultura.
Com a guerra, não puderam voltar e se tornaram protagonistas de uma história curiosa e pouco conhecida de brasileiros, a dos hibakushas – pessoas afetadas pela bomba, das quais 130 vivem no Brasil.

Yoshitaka nasceu em Bauru e vive em um sítio em Suzano. Chegou a servir ao orgulhoso exército imperial japonês. Estava dentro de um navio militar em Nagasaki quando, em 9 de agosto de 1945, a bomba explodiu na cidade portuária de 240 mil habitantes – 80 mil morreram imediatamente. Em Hiroshima, estima-se em pelo menos 100 mil os mortos logo após a explosão. Os efeitos da radiação matariam ainda outros milhares de pessoas nos anos seguintes.

“Lembro que o navio balançou. Saímos e estava tudo escuro. A cidade inteira estava destruída”, conta. Na sequência, os soldados saíram para socorrer as vítimas da explosão da fat man (homem gordo), nome dado à segunda bomba – a little boy (menininho) havia sido jogada antes do avião Enola Gay sobre Hiroshima. Yoshitaka ficou com manchas brancas nos braços. “Após a explosão, às 11 horas, o dia virou noite. O cheiro de morte nas ruas era difícil de aguentar. Demoramos para entrar em Nagasaki. Quando chegamos, havia sobreviventes em abrigos. O resto, até as árvores, estava tudo queimado.” O brasileiro, cujos pais chegaram ao país em 1909, voltou para São Paulo em 1960.
Haruko trabalhava na zona rural de Hiroshima, a 16 quilômetros do epicentro da explosão. Mesmo assim, as consequências foram catastróficas. “A casa desabou em cima de todo mundo, espalhando cacos de vidro para todo lado. Eu vivia com mais quatro irmãos na cidade de onde meus pais saíram para vir ao Brasil”, conta. Um irmão morreu pouco após a bomba, vítima de uma febre que não passava.

Pouco tempo depois, numerosos grupos de vítimas que conseguiram sair da cidade foram para a zona rural em busca de ajuda para escapar do horror. Não era possível, entretanto, encontrar muita coisa. “Era muita gente, que alojamos numa escola, um dos poucos lugares que ficou em pé, já que tudo estava queimado e destruído. Faltava de tudo.”

Pela segunda vez, a família de Haruko tomava parte de um fato histórico. Seu pai, Fusakishi Nishimura, havia sido um dos 781 pioneiros da imigração japonesa ao Brasil, onde chegaram em 1909 a bordo do navio Kasato Maru. Somente um de seus oito filhos havia nascido em Hiroshima, todos demais eram brasileiros, ocidentalizados demais para o gosto do tradicionalista Fusakishi. Enquanto seus conterrâneos rumaram para o interior, Fusakishi ficou na capital. Vendia brinquedos de madeira feitos à mão. Alguns anos depois, conseguiu montar uma pequena fábrica no bairro da Mooca. Em de 1939, mandou os filhos de volta ao Japão. Um deles, Kenzo Nishimura, casou-se com Yasuko na cidade natal do pai. Depois da guerra, decidiram voltar. “Não tem lugar como o Brasil”, diz ela.

Saúde de ferro

A Associação dos Sobreviventes da Bomba Atômica no Brasil foi surpreendida com a existência de brasileiros natos entre as vítimas. Imaginava-se que os hibakushas eram somente japoneses e coreanos. “Como todo mundo tem traços e nomes orientais, pensávamos que não havia brasileiros.

Eles são muito reservados e muitas vezes nem a família sabia o que tinha acontecido”, conta a diretora da entidade Yasuko Saito. Somente depois de um encontro há pouco mais de um ano os sobreviventes foram estimulados a falar mais de sua origem. “A história é absolutamente surpreendente porque sempre se achou que os sobreviventes eram somente japoneses e, talvez, alguns coreanos”, afirma o professor de História André Lopes Loula, diretor cultural da entidade.

Em 2003, Yoshitaka Samedima conheceu Takashi Morita, de 86 anos, presidente da associação e também sobrevivente de Hiroshima, que perguntou sobre as manchas nos braços. Até então, nem a família sabia o que ele tinha vivido naquele agosto de 1945. A razão do segredo era o preconceito. “Nenhuma moça queria se casar com hibakushas. Achavam que os filhos nasceriam com deficiências”, explica. Por causa disso, muitas histórias ficaram escondidas.

A Associação das Vítimas da Bomba Atômica no Brasil foi fundada em 1984, com o objetivo de congregar os sobreviventes e conseguir alguma ajuda do governo japonês para os hibakushas que viviam em outros países. Na rígida cultura nipônica, os que saíram do país passaram a ser vistos como ingratos com sua pátria. Morita, que começou a organizar o movimento, foi forçado a entrar com ações judiciais contra o Japão para ver reconhecidos os direitos dos conterrâneos. Hoje os 130 sobreviventes no Brasil recebem uma ajuda de aproximadamente R$ 500 por mês e assistência médica – antes o governo japonês só atendia as pessoas do país.

Duas vezes por ano, médicos japoneses especialistas em sequelas de bombas atômicas vêm ao Brasil para consultar os hibakushas. A maior parte, entretanto, tem saúde de ferro, apesar da idade. E ao contrário da crença popular, os filhos também nasceram saudáveis.

Uma luz silenciosa

Apesar de estar no Brasil desde a década de 1950, Morita ainda fala português com dificuldade, e atribui sua longevidade ao clima tropical. Policial militar em Hiroshima, estava a pouco mais de um quilômetro do epicentro da explosão. Enquanto muitos fugiam, ele voltou à cidade para tentar socorrer vítimas. “Nunca esqueci nem vou esquecer o que vi. Milhares de corpos queimados dentro dos bondes, crianças mortas sob os escombros, o fogo avançando sobre pessoas que pediam ajuda para não morrer dentro das casas destruídas. Era um cenário de horror, parecia o fim do mundo”, descreve Morita, ainda emocionado. Na hora da explosão, ele não ouviu barulho algum, foi projetado dez metros à frente e sofreu queimaduras nas costas e nuca. O então policial atribui sua sobrevivência ao fato de estar com roupas grossas, bem alimentado e de costas para o epicentro.

Só viu uma luz silenciosa, uma espécie de flash, que percorreu rapidamente todo o seu corpo. Ao conseguir se levantar, estava tudo escuro, embora fossem 8h15. Caía uma chuva negra, que a população pensava ser óleo jogado pelos americanos para provocar incêndios, como tinha acontecido em Tóquio. Não era, tratava-se de uma chuva ácida, resultante da explosão e da radiação provocada pelo artefato nuclear com potência de 21 toneladas de dinamite. Até aquele momento, ninguém imaginava que a bomba lançada era muitas vezes mais letal que as temidas ogivas incendiárias que devastaram a capital japonesa.

Uma cena que Morita jamais esqueceu foi a de uma jovem mãe, morrendo ao lado do seu filho, que pediu ao vê-lo fardado: “Soldado, mate americanos”. No Brasil, onde chegou em 1956 ao lado da mulher, a enfermeira Ayako e os filhos Yasuko (a diretora da associação) e Tetsuji, foi relojoeiro na Rua Augusta e, depois abriu uma mercearia de produtos japoneses no bairro da Saúde, onde também funciona a sede da associação e da entidade-irmã Associação Hikabusha-Brasil pela Paz.

“Meu Deus, o que fizemos?”

A frase de espanto com as consequências do ataque a Hiroshima teria sido pronunciada pelo co-piloto Robert Lewis. Ele estava a bordo do B-29, batizado como Enola Gay, comandado pelo coronel Paul Tibbets, de onde partiu a bomba que formou o enorme “cogumelo”, fotografado pelo sargento Bob Caron. A decisão havia sido tomada no dia 25 de julho pelo presidente dos Estados Unidos, Harry Truman. Em um gabinete improvisado no cruzador USS Augusta, no meio do Atlântico, foi Truman quem ordenou o ataque nuclear contra o inimigo que havia impingido um enorme número de baixas de americanos no ataque a Okinawa. Antes, entretanto, o Japão já analisava a sua rendição, pela primeira vez na história militar do país.

O presidente americano tinha em mãos uma lista de cidades-alvo feita pelo secretário de Guerra, Henry Stimson: Hiroshima, Kyoto, Nokura, Niigata e Nagasaki. Hiroshima passou a ser um alvo prioritário por ter 40 mil soldados em sua área. No navio, Truman escreveu em seu diário: “A arma finalmente será usada contra o Japão. Parece a coisa mais terrível jamais descoberta”.

A decisão foi mais do que uma vingança contra a operação japonesa na base norte-americana de Pearl Harbor, localizada na ilha de Ohau (Havaí), na qual foram mortos 2.400 americanos. O ataque causou terríveis repercussões na opinião pública do país. Os Estados Unidos alegavam que sofreriam muitas baixas – até 200 mil – em um eventual ataque convencional ao Japão. Mas o que moveu mesmo o governo de Truman a empregar a bomba foi, segundo a maior parte dos especialistas, a intenção de dar um recado a União Soviética. Afinal, o Exército Vermelho havia destruído a máquina de guerra de Adolf Hitler – era preciso demonstrar ter em mãos uma arma mais poderosa.

Hiroshima e Nagasaki teriam sido escolhidas por se situar entre vales, o que permitiria observar os efeitos da bomba em alvos reais, sem condições de a radiação se dissipar totalmente antes de cessarem seus efeitos. Seriam as primeiras (e até hoje únicas) vezes em que a poderosa arma foi usada contra alvos humanos.

Era o fim da Segunda Guerra Mundial e o início da era nuclear e da Guerra Fria, conflito não declarado entre as grandes potências, EUA e URSS, que se estenderia por todo o século 20. O embate com as extintas potências comunistas já não existe mais. Mas os interesses econômicos do bloco de nações ricas – inclusive os da indústria armamentista – ainda são um legado das potências capitalistas a ser desarmado pela humanidade no século 21.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Premiê britânico desculpa-se por massacre de católicos irlandeses em 1972

 

David Cameron: 'Bloody Sunday foi injustificado e injustificável'

David Cameron: 'Bloody Sunday foi injustificado e injustificável'

O "Bloody Sunday" acirrou o conflito entre católicos e protestantes na Grã-Bretanha. Somente em 1998 Londres ordenou processo detalhado, em nome do processo de paz no país. Resultado está em relatório de 5 mil páginas.

O primeiro-ministro britânico, David Cameron, desculpou-se publicamente nesta terça-feira (15/06) pelo massacre conhecido como "Bloody Sunday" (Domingo sangrento). Por ocasião da divulgação do longamente esperado relatório, Cameron desculpou-se: "Em nome do governo, eu lamento profundamente".

"Bloody Sunday"

Em 30 de janeiro de 1972, durante uma passeata pelos direitos civis na cidade norte-irlandesa de Londonderry, para-quedistas das Forças Armadas britânicas dispararam contra um grupo de manifestantes católicos desarmados, matando 13 deles. Um 14º morreu devido aos ferimentos, meses depois.

Londonderry em 30/01/1972Londonderry em 30/01/1972

Em consequência, acirrou-se o conflito entre católicos e protestantes no país, com a ocorrência de diversos atentados terroristas do Exército Republicano Irlandês (IRA) nos meses seguintes, em represália. Todos os anos ocorre na cidade palco do massacre uma passeata em memória às vítimas. Por motivos políticos, os norte-irlandeses católicos retiraram o "London" do nome da cidade, denominado-a apenas "Derry".

Até então, a tragédia não teve quaisquer consequências jurídicas para os soldados responsáveis. Pouco depois do "Domingo sangrento", uma comissão convocada por Londres concluiu que os soldados haviam agido em legítima defesa. Um tribunal inglês igualmente definiu o ocorrido como ato de defesa dos militares de elite contra terroristas irlandeses.

Em 1998, o então premiê britânico Tony Blair decretou a abertura de um novo processo, em apoio ao processo de paz na Irlanda do Norte. Familiares das vítimas e o governo apresentaram novos indícios e iniciaram-se os primeiros inquéritos públicos com o fim de investigar detalhadamente os fatos.

Justiça custosa

O processo, em que foram ouvidas cerca de 900 pessoas, consumiu 12 anos e o equivalente a 230 milhões de euros. Ao anunciar o relatório conclusivo de 5 mil páginas, nesta terça-feira em Londres, o premiê David Cameron observou: "Não há dúvida, o que aconteceu no 'Bloody Sunday' foi injustificado e injustificável. Foi errado". Ele ressaltou que nenhuma das vítimas estava armada e que os soldados não fizeram qualquer advertência antes de abrir fogo.

Soldado britânico detém manifestante católico no 'domingo sangrento'Soldado britânico detém manifestante católico no 'domingo sangrento'

Havia temores de que o relatório reabrisse velhas feridas. Porém em Londonderry, segunda maior cidade da Irlanda do Norte, sua divulgação foi saudada pelos familiares das vítimas, ao lado de milhares de outros irlandeses.

O vice-premiê norte-irlandês Martin McGuinness disse não acreditar que o relatório reabra feridas. Na época do massacre, ele era o segundo comandante do grupo militante católico IRA em Londonderry. "Minha esperança é que esta seja uma exposição muito clara do terrível ato cometido naquele dia pelo Estado e pelas Forças Armadas britânicas. E que ela contribua para que nunca, nunca mais vejamos atos como esse, em nenhuma comunidade."

Em contrapartida, o partido DUP (Democratic Unionist Party), basicamente protestante e liderado pelo premiê norte-irlandês Peter Robinson, criticou o inquérito por criar uma "hierarquia das vítimas": "Mais de 3.500 pessoas foram mortas durante 'The Troubles' [período de conflitos sangrentos em torno do status constitucional da Irlanda, do final de 1960 até 1998], e há centenas de casos não resolvidos, aqui mesmo. E aí vemos centenas de milhões de libras serem gastas para investigar menos de duas dezenas dessas mortes".

AV/afp/rtr/dpa
Revisão: Roselaine Wandscheer

http://www.dw-world.de/dw/article/0,,5687584,00.html

Conflito no Quirguistão revela interesses de potências globais na Ásia Central

 

Conflito étnico deixa trilha de destruição no Quirguistão

Conflito étnico deixa trilha de destruição no Quirguistão

A violência de fundo étnico e político que grassa na nação da Ásia Central é motivo de preocupação para três nações poderosas, com significativos interesses estratégicos e geopolíticos na região: China, EUA e Rússia.

A pior explosão de violência étnica das últimas décadas no Quirguistão já fez mais de 100 vítimas fatais, causou ferimentos em muitos mais e obrigou dezenas de milhares a deixarem suas casas. Contudo, o conflito tem implicações mais amplas, numa região de enorme importância estratégica e geopolítica para as maiores potências mundiais.

O conflito que irrompeu na sexta-feira (11/06) entre os clãs quirguizes e uzbeques – as etnias dominantes no país – pode ter sido desencadeado pela tensão crescente entre os dois grupos. Porém as condições para a luta foram criadas pela instabilidade política no Quirguistão: uma situação que traz decididamente as impressões digitais de três das nações mais influentes do mundo.

Enquanto os Estados Unidos e a Rússia continuam a disputa pela supremacia militar na Ásia Central, a China, que divide 850 quilômetros de fronteira com o Quirguistão, persegue significativos interesses estratégicos e econômicos no país e na região circundante.

Estratégias dos EUA

President deposto Kurmanbek BakiyevPresident deposto Kurmanbek Bakiyev

A insurreição mais recente teve sua origem na deposição do regime pró-Washington do presidente Kurmanbek Bakiyev, que deixou o país em tumulto desde abril último. Combinado à consequente posse de um governo provisório, o fato não só levou as tensões étnicas ao ponto de ebulição, como poderá fazer eclodir um novo conflito pelo controle externo sobre o Quirguistão e pelos benefícios regionais decorrentes.

Com apoio estadunidense, Bakiyev assumiu presidência em 2005. Assim, além de contar com um aliado quirguiz com quem negociar, os EUA fincaram pé num país que certos estrategistas consideram vital para os planos norte-americanos de dominância regional.

Segundo esses especialistas, um objetivo central dos EUA tem sido fortalecer a própria influência sobre os Estados centro-asiáticos da antiga União Soviética, desde o colapso desta, em 1991. A inclusão do Quirguistão e de outros três países da região no programa da Otan Parceria para a Paz, três anos mais tarde, é visto como um importante passo nesse sentido, e que acabou levando ao estabelecimento da base estadunidense em Manas, próximo à capital Bishkek.

"Durante os conflitos de abril, a base aérea de Manas ficou fechada, e uma rota de suprimentos vital para o envio de equipamentos e soldados ao Afeganistão não pôde ser usada. Os EUA precisam de um Quirquistão estável para manter essa rota em funcionamento", analisou para a Deutsche Welle Asher Pirt, especialista em assuntos militares relativos à Ásia Central.

Preocupações da Rússia

Ao mesmo tempo em que Manas segue sendo o eixo central das operações norte-americanas no Afeganistão, ela é também usada como base da Otan: uma situação que irrita e preocupa os russos. Seu temor diante da influência sobre o Leste do antigo oponente da Guerra Fria coloca o Quirquistão no centro de uma disputa pelo poder regional.

Do Quirquistão, o perito em segurança internacional Dex Torrike-Barton falou à Deutsche Welle: "A atual crise é uma forte ameaça à autoridade do governo quirguiz. A liderança provisória ainda está muito fraca. Se a violência se alastrar para além das cidades atualmente afetadas, a consequência pode ser instabilidade política em grande escala".

Tal situação coloca em cheque a própria existência da base de Manas. "Há numerosas facções no Quirquistão que são contra qualquer tipo de presença estadunidense. Se a Rússia ou a Organização do Tratado Coletivo de Segurança [CSTO, aliança de defesa regional composta pela Rússia, Belarus, Uzbequistão, Cazaquistão, Tadjiquistão e Armênia] intervierem, o resultado pode ser o mesmo."

Refugiados uzbeques na cidade de OshRefugiados uzbeques na cidade de Osh

Pipelines e extremismo

A própria Rússia mantém a base aérea de Kant, a 20 quilômetros de Bishkek, assim como uma base naval estratégica no Lago Issyk-Kul. Desde que o pró-americano Bakiyev foi afastado em abril, Moscou tem, previsivelmente, sido o principal apoiador do governo provisório, na esperança de reconquistar influência, no caso de a ordem se restabelecer no Quirguistão.

Embora Washington argumente que sua presença é mutuamente vantajosa – por ajudar a deter a expansão do fundamentalismo islâmico na Ásia Central, e a resolver o problema do Afeganistão – a versão do Kremlin é diferente. Segundo este, os EUA pretenderiam impedir a hegemonia russa e/ou chinesa, assegurando para si recursos energéticos epipelines.

O Quirquistão é, ainda, uma questão de segurança nacional. "A Rússia deseja uma vizinhança estável. Violência, em especial de dimensão étnica ou religiosa, tem o potencial de contaminar toda a região", explica Torrike-Barton. "A brutalização da comunidade uzbeque no Quirquistão pode fomentar o extremismo islâmico. E não há pesadelo maior do que esse para o Estado russo, ainda às voltas com as forças insurgentes do Cáucaso." Asher Pirt confirma: "Uma região estável, sem tumulto étnico nem extremismo religioso, é uma meta estratégica para a Rússia".

Interesses da China

A China também tem muito com que se preocupar. Seu interesse está tanto em um Quirquistão estável e amigável, quanto em evitar que os EUA dominem a região. Pequim era o principal financiador de Askar Akayev, ex-presidente apoiado por Washington, que, no entanto, o abandonou assim que ele aceitou dinheiro chinês.

A principal arma da China para manter um pé no Quirquistão continua sendo financeira, e, assim como a Rússia, seu interesse é duplo: expandir o máximo possível sua influência na Ásia Central e, ao mesmo tempo, reduzir ao mínimo as chances de os Estados Unidos fazerem o mesmo.

Trata-se ainda de uma questão de segurança nacional. As fronteiras sino-quirguizes correm ao longo dos limites da politicamente sensível província de Xinjiang, onde, em julho de 2009, houve a revolta da etnia uigur.

"O Quirquistão é o mercado exportador número um para Xinjiang", analisa o especialista Torrike-Barton. "Trata-se de uma destinação lucrativa para as mercadorias e a mão-de-obra chinesa; portanto há uma dimensão econômica importante ligando os dois países. Mas, como no caso da Rússia, a principal preocupação chinesa é a segurança. Um Quirquistão instável, com uma população muçulmana recalcitrante, não ajuda a China a preservar a paz em Xinjiang e entre a comunidade uigur."

Destroços em Jalal-Abad após os choques étnicosDestroços em Jalal-Abad após os choques étnicos

Influência global

Outra fonte de preocupação ainda mais séria é a permeabilidade da fronteira sino-quirguiz. Esta tem permitido ao serviço norte-americano de inteligência realizar operações desestabilizadoras secretas na província estrategicamente vital e politicamente frágil de Xinjiang. Pequim acredita que o fluxo de pessoas entre os países seja um disfarce perfeito para as ações dos Estados Unidos.

Segundo Torrike-Barton, é improvável que os chineses venham a intervir na crise do Quirquistão. "Apesar de seu status de financiadora de diversos políticos quirguizes, ela tem capacidade limitada para influenciar a presente situação. Sem um maior empenho dos chineses em aplacar a violência, duvido que haja muitas repercussões nas relações sino-americanas."

Com tanta desconfiança e jogos de poder entre as nações mais poderosas do mundo, é possível que o futuro do Quirquistão venha a ter grande influência não só sobre a região, como sobre a política global.

Autoria: Nick Amies / Augusto Valente
Revisão: Roselaine Wandscheer

http://www.dw-world.de/dw/article/0,,5687004,00.html?maca=bra-rss-br-all-1030-rdf

domingo, 13 de junho de 2010

terça-feira, 8 de junho de 2010

Guerra Fria

A Guerra Fria

Guerra Fria e Influência no Mundo Moderno

Xenofobia

 

Este cartaz saiu da Espanha e está rodando o mundo (traduzido).

Muito bom para chacoalhar os países que estão discriminando estrangeiros,

mas bom também para todo mundo,

para uma reflexão sobre nossos preconceitos,

nossas escolhas e nossas rejeições...!

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As vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido.
Fernando Pessoa.

" Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento."
Clarice Lispector

Ex-iugoslavos ainda esperam bondades do capitalismo

 

Após as guerras de secessão dos Bálcãs na década de 90, a região, que se dividiu em Bósnia-Herzegovina, Croácia, Eslovênia, Kosovo, Macedônia, Montenegro e Sérvia, sofreu uma “dolorosa transição” para uma economia de mercado. Segundo estudo do Pnud, privatizações foram pouco transparentes. Em vários casos, empresas foram vendidas por cifras nominais de poucos euros e os novos proprietários não fizeram nada com elas. Sérvia, Croácia e Bósnia-Herzegovina se converteram em “Estados reféns”, nos quais os governantes permitiram com que delinqüentes ou “redes mafiosas” violassem a lei de forma flagrante e tirassem proveito “de transações nebulosas com funcionários e autoridades.”

Vesna Peric Zimonjic - IPS

A população da desintegrada Iugoslávia ainda espera a chegada do prometido grande crescimento econômico e rápido desenvolvimento que viriam com o capitalismo. Há milhões de pessoas pobres e entre 2 e 3% de ricos, segundo estatísticas oficiais. Após as guerras de secessão dos Bálcãs na década de 90, a região, que se dividiu em Bósnia-Herzegovina, Croácia, Eslovênia, Kosovo, Macedônia, Montenegro e Sérvia, sofreu uma “dolorosa transição” para uma economia de mercado, indicam analistas. A situação começou a se deteriorar entre 1991 e 1995, quando terminou o regime socialista liberal que caracterizou a Iugoslávia desde o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
A economia regional está em um estado lamentável, se comparado ao de 1989, quando estava especialmente bem. O caso da Eslovênia é diferente porque era uma das regiões mais desenvolvidas da Iugoslávia e ingressou na União Européia em 2004. O processo de privatização e a transição para uma economia de mercado foi totalmente distinto ao de outros países da Europa oriental, após a queda do muro de Berlim, em 1989, segundo especialistas. “Não se viram gerentes comunistas espertalhões ou empresários internacionais de duvidosa reputação envolvidos nas privatizações”, diz o analista Misa Brkic, em entrevista a IPS. A pobreza que existe hoje nesta região não é um fato repentino causado pela atual crise econômica mundial. “As elites locais aproveitaram as devastadoras guerras para ficar com o poder e colocar sua gente na frente da economia. Não puderam nem souberam jogar em função das regras de mercado”, acrescenta.
A guerra causou mais de 120 mil mortes. As perdas econômicas foram de bilhões de dólares com a destruição de fábricas, empresas, edifícios privados e públicos, aniquilação da produção e a falta de exportações para o desaparecido mercado comum. O custo da destruição na Sérvia chegou a mais de 17 bilhões de dólares, após o bombardeio da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) em 1999, com o objetivo de terminar com a repressão do regime do ex-presidente Slobodan Milosevic (1941-2006) contra os albaneses de Kosovo. A situação dissuadiu as empresas internacionais de realizar investimentos importantes na região, assinalou Brkic. O que ocorre desde 2008 “não é mais que o resultado inevitável da combinação da situação local deteriorada e da recessão mundial”.
A falta de atividade econômica é típica. As pessoas querem cada vez mais ajuda do Estado. O desemprego afeta cerca de 20% da população ativa da Sérvia e da Croácia e mais de 45% na Bósnia-Herzegovina. “A mentalidade socialista custa a morrer”, comenta Brkic. “Nunca adotamos a crença de que há uma relação entre quantidade de trabalho e qualidade de vida. Por isso, há protestos diários frente aos edifícios governamentais. Os trabalhadores reclamam salários e empregos ao Estado”.
Os aposentados dependem de pensões, cujo valor caiu a umas poucas centenas de dólares por mês. Os cofres do Estado minguam pela baixa arrecadação de uma economia estagnada e de poucos recursos deixados pelas privatizações. “A indústria e o comércio croata foram vítimas da louca idéia de Franjo Tudjman (líder independentista e ex-presidente já falecido) que criou 200 famílias muito ricas para lançar uma economia bem sucedida”, disse Zarko Modric à IPS. “Mas só a sua turma ficou com os recursos da privatização. As outrora pujantes indústrias e empresas exportadoras foram vendidas por pouco dinheiro a pessoas que não souberam administrá-las”, assinala.
A solução mais fácil para o Estado ao término da guerra de 1995 foi aposentar centenas de milhares de veteranos empresários, cujas empresas tinham sido destruídas pelo bombardeio em zonas de combate ou pelas privatizações, explica Modric. “A quantidade de aposentados é apenas um pouco menor que a de empregados na Croácia. As pensões e outras categorias sociais consomem boa parte do orçamento estatal. O governo pede empréstimos, mas sob condições cada vez mais severas”, adverte. “A dívida externa desse país equivale hoje ao seu Produto Interno Bruto, algo em torno de 55 bilhões de dólares. O Estado é prisioneiro dessa dívida”.
Em 2003, a Croácia, com 4,3 milhões de habitantes, alcançou 69% do PIB que tinha em 1989; enquanto a Sérvia, com 7,3 milhões de pessoas, o fez somente em 2009. A situação é ainda pior na Bósnia-Herzegovina, um país de 3,5 milhões de habitantes, que após a guerra ficou conformada por duas entidades: a República dos sérvio-bósnios, e a Federação Croata-Muçulmana. A corrupção, a violação das leis, a fuga de cérebros, as divisões étnicas entre bósnios muçulmanos, croatas e sérvios, “arraigados a suas entidades”, são apontadas como as principais razões da estagnação econômica do país, segundo um estudo realizado em 2009 pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).
Uma investigação aprofundada, “Privatização do capital estatal na Bósnia-Herzegovina”, descreve o processo de reconstrução entre 1995 e 2000, a privatização e a transição para uma economia de mercado até 2009. Do mesmo modo que a Sérvia e a Croácia, a Bósnia-Herzegovina se converteu em um “Estado refém”, no qual os governantes permitiram com que delinqüentes ou “redes mafiosas” violassem a lei de forma flagrante e tirassem proveito “de transações nebulosas com funcionários e autoridades”, segundo o Pnud. As privatizações foram pouco transparentes. As empresas foram vendidas por cifras nominais de poucos euros e os novos proprietários não fizeram nada com elas.
Os cofres do Estado ficaram sem o dinheiro das privatizações, o que fez cair as já magras aposentadorias e a assistência social. “Quando a população da desintegrada Iugoslávia se queixa de que nunca foi tão pobre, eu explico que não podem compreender o que ocorreu, apesar de terem sido testemunhas de tudo”, sustenta Brkic. “Muita gente acredita que não é preciso trabalhar para viver bem. Mas a realidade é dolorosa e ninguém escapa dela. A transição é dura, mas deve ser feita rapidamente para que o dano seja menor”, sustenta. “Há 20 anos que vivemos nesta situação, mas os governantes, os especialistas e os acadêmicos devem alcançar um consenso para acelerar o processo”, conclui.
Tradução: Katarina Peixoto

19/05/2010 http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16616